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Apontamentos sobre o livro do profeta Ezequiel

Dando sequência a um cuidadoso planejamento pedagógico que tem feito com que os seus estudos foquem em livros do Antigo e do Novo Testamento, de modo alternado, objetivando fazer com que, no final de um dado período, a igreja possa ter uma compreensão abrangente das Escrituras Sagradas em sua totalidade, a Escola Bíblica Dominical da Igreja Presbiteriana de Campina Grande estudará no primeiro trimestre do ano em curso, o livro do profeta Ezequiel, considerado um profeta maior, ao lado de Isaías, Jeremias e Daniel, nomenclatura essa vinculada não a sua superioridade em relação aos demais profetas classificados como menores, mas, sim, ao volume dos escritos que tais profetas produziram.

Ezequiel é também chamado de profeta exílico, dado que as suas profecias foram consignadas no contexto em que o povo de Deus, por causa dos seus pecados, notadamente o da idolatria, já estava sendo alvo do prometido, e cumprido, juízo divino, contra uma nação contumazmente rebelde e recorrentemente violadora dos mandamentos do Senhor.

Por causa da sua linguagem ostensivamente simbólica e matizada pelas constantes visões vivenciadas pelo profeta, muitas vezes estranhas e verdadeiramente incomuns, o livro de Ezequiel não é de fácil interpretação, sendo a sua leitura e estudo, detido, um precioso desafio para todos nós. Desafio esse que, enfrentado com diligência e contando com a indispensável assistência do Santo Espírito de Deus, que inspirou o livro bem como as demais Escrituras Sagradas, haverá de ser sumamente proveitoso para todos nós que, em suas belas, poéticas e inspiradas páginas, certamente conheceremos mais e mais o majestoso Deus a quem servimos; teremos uma compreensão mais nítida acerca dos nossos pecados e da terrível propensão que temos para quebrar a lei de Deus; experimentaremos a superabundante, suficiente e salvadora graça do Deus que fez uma eterna aliança com o seu povo. Conheceremos, enfim, mais verticalmente, uma das mais gloriosas porções da Palavra de Deus, lamentavelmente, ainda pouco lida e estudada com a devida atenção.

Híbrido de literatura profética e apocalíptica, aquela que sempre surge em tempos de crises e grandes perseguições, nos quais Deus sempre triunfa e infunde viva esperança e consolação no coração dos seus servos sofredores, o livro do profeta Ezequiel é lindo, profundo, encantador, desafiador, confrontador, consolador, pleno de beleza teológica e verdade evangélica. Nele, podemos encontrar, com cristalina nitidez, as grandes, antigas e eternas doutrinas da graça, tais como: a radical depravação dos homens; a incondicional eleição de Deus; a graça irresistível; a expiação objetiva e a perseverança dos santos. Perseverança essa que somente se efetiva porque Deus, por amor do seu santo nome, uma das grandes ênfases do livro, persevera em nos amar; preservar; disciplinar; restaurar e sustentar no estado de graça do qual Ele mesmo é fonte insecável.

O livro de Ezequiel desvela-nos o agir soberano de Deus por meio da ação recorrente da sua normativa e verdadeira Palavra, à luz da qual aprendemos que “se formos infiéis, ele permanece fiel; não pode negar-se a si mesmo” (2 Timóteo 2.13). O livro de Ezequiel constitui-se num permanente convite e convocação de Deus ao arrependimento humano; arrependimento, que é a porta de entrada no reino de Deus, doutrina centralíssima do evangelho da graça de Deus.

No livro de Ezequiel, encontramos, comoventemente, a impressionante longanimidade divina, sempre pródiga em esperar, pacientemente, pelo arrependimento do pecador. O livro de Ezequiel também enfatiza a inevitabilidade do juízo divino contra o pecador e o seu pecado. Juízo esse que nunca é desarrazoado, antes é a justa retribuição que os nossos pecados merecem: o exílio de Israel que o diga.

O livro de Ezequiel nos apresenta, em tonalidade maior, a fidelidade de Deus em cumprir o pacto da graça que Ele fez com o seu povo, e do qual a Trindade participou, soberanamente, nos imemoriais e invisíveis bastidores da eternidade. O livro de Ezequiel enfatiza, abundantemente, a realidade da glória de Deus; a sua excelência e o modo reverente como devemos considerá-la. O livro de Ezequiel revela-nos a incondicional disposição que Deus tem em amar o povo a quem Ele escolheu desde a eternidade, e no qual Ele fixou os seus redentivos afetos.

O livro de Ezequiel faz severas advertências contra os falsos profetas; e, de igual maneira, contra aqueles que dão crédito aos arautos da mentira, realidade atualíssima em nossos dias. Ainda no tocante ao amor de Deus, vale a pena destacarmos, dentre outros, o capítulo dezesseis, no qual nos deparamos com um verdadeiro e santo idílio, com cenas de uma linda história de amor entre o Deus fiel e o seu povo, a sua noiva e esposa, sempre pendente para o cultivo da infidelidade.

Embora não citado no Novo Testamento nem uma única vez, é possível encontrarmos belos paralelos entre passagens do livro de Ezequiel e algumas porções neotestamentárias, a exemplo da comparação que é feita entre Israel e uma vinha; vinha que se torna inútil, não frutífera; e, por isso mesmo, passível de ser queimada.

No evangelho de João, capítulo quinze, Jesus Cristo, referindo-se aos seus discípulos, do presente e do futuro, faz afirmações similares. Quem está em Cristo deve frutificar, do contrário, corre o risco de ser queimado e jogado fora. Aqui, não é a perda da salvação que se está aventando, absolutamente, mas, sim, a ingente necessidade que todos temos, e que é um verdadeiro imperativo da graça, de nos examinarmos a nós mesmos, a fim de verificarmos se somos ou não de Jesus Cristo. O pressuposto básico é o seguinte: se estamos realmente radicados em Cristo Jesus, haveremos de frutificar. E tal frutificação se manifestará, fundamentalmente, no indesviável anelo de querermos obedecer a Deus e fazer-lhe a vontade, ainda que, frequentemente, desse ideal estejamos distantes, por causa do pecado residente em nós; e de nossa, muitas vezes, negligência em nos apropriarmos dos santificadores meios de graça que o Senhor coloca a nossa disposição.

Em seu livro, o profeta Ezequiel comunica-nos a sua mensagem, várias vezes, por meio de parábolas, assim como o fez o nosso bendito Salvador, durante o seu redentivo ministério.
Enfim, amados irmãos, ler o livro do profeta Ezequiel está se constituindo para mim num indescritível deleite espiritual. Formulo votos de que esta também seja a experiência de cada um dos que compõem o quadro docente e discente da nossa amada Escola Bíblica Dominical. Quedemo-nos, todos, aos pés do Supremo Professor: o Espírito Santo de Deus.

Deo Gloria Nunc Et Semper.

José Mário da Silva
Presbítero – Igreja Presbiteriana do Brasil/CG e um dos palestrantes da Consciência Cristã

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Há tempo ‘de’… em 2018

Quer tenham lido em Eclesiastes, quer tenham ouvido dos The Byrds, muita gente em nossa cultura conhece a seguinte poesia bíblica:

“Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu:

há tempo de nascer e tempo de morrer;
tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou;
tempo de matar e tempo de curar;
tempo de derribar e tempo de edificar;
tempo de chorar e tempo de rir;
tempo de prantear e tempo de saltar de alegria;
tempo de espalhar pedras e tempo de ajuntar pedras;
tempo de abraçar e tempo de afastar-se de abraçar;
tempo de buscar e tempo de perder;
tempo de guardar e tempo de deitar fora;
tempo de rasgar e tempo de coser;
tempo de estar calado e tempo de falar;

tempo de amar e tempo de aborrecer;
tempo de guerra e tempo de paz.”
(Eclesiastes 3.1-8)

O começo de um novo ano marca um tempo no qual nós podemos tomar decisões, anotar nossos objetivos e planejar eventos especiais. Mas no meio de todas essas resoluções, objetivos e planos, a Palavra de Deus nos chama a reconhecer sua soberania e providência em nossas vidas. O Breve Catecismo de Westminster nos lembra que “As obras da providência de Deus são a sua maneira muito santa, sábia e poderosa de preservar e governar todas as suas criaturas, e todas as ações delas.” (BCW 11). Deus governa todas as coisas, incluindo o tempo. Sua soberania se estende sobre cada evento, até a eternidade.

Quando lemos os Evangelhos, vemos que Jesus assume exatamente a mesma autoridade sobre o tempo que o Pai. Jesus sempre sabia o tempo. O hino “Coroá-lo com muitas coroas” (N. do E.: No Brasil, “Oh Venham Coroar”) corretamente chama Jesus de “Senhor dos anos, o Potentado do tempo” Em várias ocasiões os discípulos perguntaram a Jesus quando “o tempo” viria. Eles estavam querendo saber quando o reino terreno do Messias seria inaugurado. Como crianças em uma longa viagem de carro, eles ficavam pressionando o Senhor com a pergunta “Já chegamos? Já chegamos?”. Jesus pacientemente respondeu dizendo que sua “hora ainda não era chegada”. Houve um tempo apropriado para tudo o que Jesus fez. Houve um dia específico para Jesus nascer. Havia também um tempo em que ele iria morrer. “Porque Cristo, quando nós ainda éramos fracos, morreu a seu tempo pelos ímpios.” (Romanos 5.6) Houve tempo para tudo que Jesus fez e todo esse tempo estava sujeito à boa vontade do Pai. Com que frequência nós pulamos de uma atividade para outra à medida que tentamos forçar nossa própria vontade em nossas agendas? Com que frequência declaramos nossos planos a Deus e esperamos que ele se adeque? Em vez disso, precisamos aprender a esperar em Deus e seu tempo. Paciência é um exercício de fé na soberania e bondade de Deus.

Quando olhamos para 2018 diante de nós, faremos bem em lembrar que Deus é aquele que ordena nossos dias e é soberano sobre nosso tempo. “Há tempo de nascer e tempo de morrer”. Alguém já disse que “nascimento e morte são dois compromissos que nenhum homem marca, mas aos quais todo homem atende”. Seu nascimento não foi planejado por você, nem sua morte vai ser. Esses compromissos descansam no bom, perfeito e soberano tempo de Deus. Toda a preocupação e aperreio com os vários eventos desse ano não vão aumentar nem um segundo à sua vida (Mateus 6.27). Então, neste novo ano, tenha esperança de se livrar da ansiedade e preocupação. Confie que Deus tem sua vida sob controle.

Vamos começar esse ano novo com uma fé maior em Deus. E como resultado de nossa fé na soberania de Deus sobre todas as coisas, devemos atentar à admoestação de Paulo para “remir o tempo” (Efésios 5.16). Como o Pregador de Eclesiastes disse, há tempo para tudo debaixo do céu. Procure o direcionamento de Deus nas Escrituras e em oração para fazer o melhor uso do tempo. Siga em frente com uma confiança firme em Deus porque ele “anuncia o fim desde o começo” (Isaías 46.10). Se olharmos para o tempo com uma confiança fiel em Deus, então vamos contar nossos dias com um coração sábio (Salmos 90.12) e glorificar a Deus porque “ fez tudo formoso no seu devido tempo” (Eclesiastes 3.11).

 

Por Donny Friederichsen
Traduzido por Reforma21 – adaptado para 2018

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O mistério e a glória da encarnação #natal

Chegamos naquela época do ano em que muitos cristãos celebram a encarnação do Filho de Deus. Ao pensar a respeito e meditar sobre a encarnação, aqui estão algumas verdades para se ter em mente.

A encarnação tem sido chamada de milagre dos milagres

Ninguém além de Deus poderia pensar em uma “obra” assim. De fato, ninguém além de Deus poderia realizar uma obra tão difícil e gloriosa como a encarnação do Filho de Deus. Ela é a “a maior demonstração da sabedoria, bondade, poder e glória de Deus” (James Ussher). Ou, como Goodwin colocou de forma bela, “Céu e Terra se encontram e se beijam, a saber, Deus e homem”.

A encarnação deve nos deixar maravilhados

Por quê? Porque, como Bavinck diz, é “completamente incompreensível para nós como Deus se revela e, de certa forma, se faz conhecido, nas coisas criadas: eternidade no tempo, imensidão no espaço, infinidade no finito, imutabilidade na mudança, o ser que era tudo se tornando em nada. Esse mistério não pode ser compreendido; só pode ser gratamente reconhecido. Mas mistério e contradição não são sinônimos”.

A encarnação é o fato central da história e da confissão da igreja

“Evidentemente, grande é o mistério da piedade: Aquele que foi manifestado na carne” (1 Timóteo 3.16). Mesmo antes da Queda, Deus decidiu eternamente que o Filho deveria assumir a natureza humana, consistindo de corpo e alma. Como o Filho eterno, que não tem início nem fim, ele sempre foi conhecido como aquele que se tornaria “o encarnado”. Mas o que significa para o Filho de Deus se fazer encarnado?

A encarnação é um ato do Deus triúno

Todas as três pessoas da Trindade tem parte na encarnação do Filho de Deus. Em resumo, a autoridade do Pai, o amor do Filho e o poder do Espírito Santo estão trabalhando na gênese do Deus-homem, Jesus Cristo.

Hebreus 10.5 se baseia no Salmo 40.6 para falar do corpo que foi preparado para Cristo pelo Pai: “… antes, um corpo me formaste…”. O autor de Hebreus trata diretamente da humanidade de Cristo, incluindo um detalhe importante sobre quem “formou” o corpo que o Filho tomaria. Com “corpo”, o autor, por uso de uma sinédoque (a parte pelo todo), se refere à alma também. No contexto de Hebreus 10, a natureza humana de Cristo é necessária para Cristo poder oferecer um sacrifício.

O Pai “ordenou, formou, apropriou e permitiu que a natureza humana de Cristo viesse a existir e cumprisse o que lhe devia cumprir quando veio ao mundo” (William Gouge). Deus trabalha dessa forma com todos os seus servos a quem ele equipa para realizar tarefas especiais, especialmente seu Filho, que foi enviado pelo Pai à semelhança de carne pecaminosa (Romanos 8.3). Deus preparou um corpo sem pecado e habilitou Cristo com os dons e graças necessários para realizar a obra do mediador. Por fim, o Filho precisava de um corpo para poder oferecer um corpo. Ele precisava de um corpo para que sua ressurreição corpórea pudesse ser o protótipo da ressurreição dos nossos corpos.

Se o Pai foi responsável, como arquiteto mestre, por “projetar” e “preparar” o corpo que o Filho assumiria, o Espírito Santo, como um construtor mestre, foi o responsável pela formação de fato da natureza de Cristo no ventre de Maria: “Descerá sobre ti o Espírito Santo, e o poder do Altíssimo te envolverá com a sua sombra; por isso, também o ente santo que há de nascer será chamado Filho de Deus” (Lucas 1.35). O Espírito Santo carrega a responsabilidade da vida espiritual e física de Jesus (Mateus 1.18, 20). Ussher fala do ventre de Maria como a “câmara-noiva” onde o Espírito “costurou esse nó indissolúvel entre nossa natureza humana com sua Divindade”. Que privilégio para o Espírito Santo, forjar a natureza humana de Jesus para a obra da redenção e, por consequência, da glorificação futura.

A decisão de fato, entretanto, de assumir a natureza humana, pertence ao Filho. Tudo que Jesus faz por seu povo deve ser voluntário, não forçado. Isso inclui a decisão de tomar para si a união de si mesmo com a natureza humana verdadeira (corpo e alma). Essa decisão pode ser chamada de “A decisão”, em termos de seu significado temporal e eterno para a humanidade.

O significado da encarnação é destacado pelo envolvimento trinitário de Deus nesse ato tão grandioso.

A encarnação é gloriosa

Na união das naturezas humanas e divinas, a maior distância possível permanece. O criados é identificado com uma criatura. Em Cristo, se vê a eternidade e a temporalidade, a bênção eterna e o sofrimento temporal, onipotência e fraqueza, onisciência e ignorância, imutabilidade e mutabilidade, infinidade e finitude. Todos esses atributos contrastantes se juntam na pessoa de Jesus Cristo. Como o puritano Stephen Charnock testificou de forma tão eloquente:

“Que maravilha que as duas naturezas infinitamente distantes fossem tão mais intimamente ligadas do que qualquer outra coisa no mundo. Que a mesma pessoa tivesse tanto glória quanto sofrimento; uma alegria infinita na Divindade, e um sofrimento inexprimível da humanidade! Que o Deus assentado no trono se tornaria um bebê na manjedoura; o criador trovejante se tornasse um bebê chorando e um homem sofrendo; a encarnação espanta os homens sobre a terra e os anjos no céu”.

A encarnação abre a possibilidade de comunhão entre Deus e o homem

O Filho, para usar as palavras de Warfield, “desceu uma distância infinita para alcançar a mais alta exaltação concebida pelo homem” (Filipenses 2.6-11). Deus não pode ter comunhão com o homem exceto por alguma forma de condescendência voluntária. Tal rebaixamento divino na encarnação não é apenas voluntária, mas também a mais gloriosa possibilidade, porque, através de Cristo, somos levados a Deus.

Afinal de contas, se Jesus fosse, em todas as coisas, apenas um homem, ele estaria na mesma distância infinita para Deus como nós estamos. Da mesma forma, se Jesus fosse, em todas as coisas, apenas Deus, ele estaria apenas do outro lado da mesma distância. Como o Mediador, entretanto, ele estreita o abismo entre o Deus infinito e o homem finito. Tudo que pertence a Deus, Jesus possui. Tudo que faz alguém verdadeiramente homem, Jesus possui. Dificilmente poderíamos melhorar o testemunho de Charnock:

“Ele tinha tanto a natureza que foi ofendida quanto a natureza que ofendeu: a natureza para agradar a Deus e a natureza para nos agradar: uma natureza onde ele experimentalmente conheceu a excelência de Deus, que foi agredida, e entendeu a glória devida a Ele, e consequentemente o tamanho da ofensa, que seria medida pela dignidade de sua pessoa: e uma natureza onde ele seria sensível às misérias contraídas pelo, e aguentar as calamidades devidas ao, ofensor, para que ele pudesse tanto ter compaixão quanto fazer a propiciação devida. Ele tinha duas naturezas distintas capazes das afeições e sentimentos das duas pessoas que o compunham; ele era tanto o juiz dos direitos de um quanto dos deméritos do outro”.

Jesus aprendeu e Jesus sabia de todas as coisas; Jesus morreu e Jesus dá vida para todos os seres viventes; Jesus foi amamentado por sua mãe e provê o alimento à sua mãe com o que ela o alimentava. Apenas a encarnação do Filho de Deus pode explicar essas afirmações. Assim, dizemos com Lutero:

“Todo o louvor a Ti, Deus eterno,

Que, revestido de sangue e carne,

Faz da manjedoura Teu trono,

Quando todo o universo Te pertence.

Aleluia!”

A encarnação do Filho de Deus significa que Jesus é eternamente Deus e homem

Ele não pode abrir mão de sua humanidade após ascender ao céu, como muitos cristãos imaginavam, e ainda o fazem. A união é indissolúvel; ele é o Filho de Deus ressurreto em poder, de acordo com sua humanidade (Romanos 1.4).

Isso nos mostra o quanto Deus ama “a carne” (isso é, a natureza humana). Deus se identifica para sempre com a humanidade por causa da encarnação. Assim, o céu um dia será um lugar “encarnado” nos Novos Céus e Nova Terra. Não “pecaminoso”, mas certamente um lugar onde seremos verdadeiramente humanos, porque seremos perfeitamente conformados, de corpo e alma, ao homem Jesus Cristo (Filipenses 3.20-21; 1 Coríntios 15.49).

Nosso pecado inerente será completamente abolido. Para que corpos e almas possam ser redimidos, Jesus deveria possuir um corpo e uma alma, visto que o que não fosse assumido por Cristo não poderia ser restaurado. Um não é mais importante que o outro, como se desejássemos o dia em que deixaremos nossos corpos para trás e nos tornaremos almas “flutuantes”. Longe disso. Desejamos o dia em que nossos corpos e almas serão ambos transformados à semelhança do glorioso corpo de Cristo (1 João 3.2).

A encarnação explica por que o céu será para sempre

Como estamos (corpo e alma) unidos a Jesus Cristo, nosso noivo (que possui tanto corpo quanto alma), o céu nunca acabará. Uma dessas coisas precisaria acontecer: Jesus precisaria deixar de existir, ou Deus precisaria pecar. Ambos são impossíveis. Por que Deus teria que pecar? Por que Deus precisaria aprovar nosso divórcio, algo que ele odeia (Malaquias 2.16), para que deixássemos de existir. A união entre a noiva e o noivo no céu é garantida pela imutabilidade de Deus, e pela de Cristo também, que mantém a união que não pode ser dissolvida.

A lei de Deus será cumprida no céu, tanto por Cristo quanto pelo seu povo. Nós, que entraremos no descanso do Sábado (Hebreus 4.11) não só iremos amar o Senhor nosso Deus com todo o nosso coração, alma, mente e forças (isso é, o primeiro, o segundo e o terceiro mandamentos), mas também iremos amar nosso noivo (o sétimo mandamento). O tipo de amor que Cristo terá por sua noiva nos manterá completamente a salvo de desejar qualquer outro amor.

A encarnação deve ser imitada

Paulo escreve “Tende em vós o mesmo sentimento” antes de descrever tudo o que esteve envolvido no Filho de Deus se humilhar até a morte, e morte de cruz (Filipenses 2.5-11). Depois das palavras “Cristo, nosso Redentor”, as palavras “Cristo, nosso Exemplo” são as mais precisas para os cristãos. Não nos é dito que devemos imitar um pedinte para exemplificar humildade, mas que devemos imitar o Deus glorioso. A graça da humildade cristã começa ao imitar a encarnação do Filho de Deus. Para imitar a encarnação, precisamos entendê-la; e para entendê-la, precisamos meditar nela. Sim, de fato, grande é o mistério de nossa religião:

“O criador do homem se fez homem,

para que Ele, Regente das estrelas, pudesse ser amamentado por Sua mãe;

para que o Pão sentisse fome,

a Fonte sentisse sede,

a Luz dormisse,

o Caminho se cansasse da jornada;

para que a Verdade fosse acusada de falso testemunho,

o Mestre fosse açoitado,

a Fundação fosse suspensa no madeiro;

para que a Força fosse enfraquecida;

para que o Cuidador fosse ferido;

para que a Vida morresse.”

– Agostinho de Hipona

 

Texto de Mark Jones – Tradução: Filipe Schulz
Reproduzido por Visão Cristã
Imagem: reprodução web

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Reforma Protestante: Avivamento missionário

A Reforma Protestante do século 16 foi um avivamento teológico, espiritual e missionário.

Na perspectiva missionária, gerou um enorme e prolongado impacto, sobretudo em três áreas:

Despertou a Igreja para a tradução, leitura e distribuição da Palavra em toda a terra. Antes da Reforma Protestante a Bíblia estava disponível em menos de 10 línguas. Hoje, encontra-se traduzida e distribuída, total ou parcialmente, em 2.500 idiomas em todo o mundo. Apenas na cidade de Genebra, sob orientação do reformador João Calvino, havia 38 oficinas tipográficas para a reprodução da Bíblia e panfletos apologéticos em meados do século 16, envolvendo mais de 2.000 pessoas no trabalho de impressão e distribuição de material bíblico nos países vizinhos, sob risco de encarceramento ou morte.

Promoveu a pregação intencional do Evangelho e plantio de igrejas. Entre 1.553 e 1.562 a Igreja Reformada de Genebra enviou para a França centenas de missionários e, como resultado da pública pregação do Evangelho, foram organizadas cerca de 2.000 igrejas e 2.000 escolas confessionais com cerca de 3 milhões de convertidos em um país, na época, com 20 milhões de habitantes. Apenas no ano de 1.561 foram enviados 142 missionários de Genebra para a França. Se comparássemos, de forma proporcional, a Genebra do século 16, com 20.000 habitantes, e o Brasil de 2017, com mais de 20 milhões de evangélicos, precisaríamos enviar 142.000 missionários por ano para nos equipararmos com o movimento missionário reformado daquela época.

Ensinou que a pregação do Evangelho deve ser realizada por toda a igreja, em todo o mundo, em todas as gerações. Em seu comentário sobre Isaías 12:5, Calvino escreve: “porque é nossa obrigação proclamar a bondade de Deus para todas as nações… a obra não pode ser escondida em um canto, mas proclamada em todos os lugares”. Comentando Mateus 28:19 ele também enfatiza: “o Senhor ordena que os ministros do Evangelho vão para longe, com o objetivo de anunciar a doutrina da salvação em todas as partes do mundo”. E, de forma espetacular, em seu livro A Escravidão e Liberação da Vontade, João Calvino, relacionando a soberania de Deus com a evangelização, explica:

“… Embora Deus seja capaz de realizar a obra secreta de seu Santo Espírito sem qualquer meios ou assistência, ele também ordenou a pregação externa (pública), para ser usada como um meio. Mas para torná-la um meio efetivo e frutífero, ele escreve com seu próprio dedo em nossos corações aquelas palavras que ele fala em nossos ouvidos pela boca de um ser humano”.

Que a Igreja evangélica, herdeira da verdade bíblica resgatada na Reforma Protestante do século 16, levante-se para glorificar o nome de Deus indo para as ruas, condomínios, cidades, desertos, matas e ilhas, a fim de proclamar a Sua salvação para aqueles (mais de 4.000 povos e 1.800 línguas…) que ainda nada ouviram de Cristo.

REFERÊNCIAS Calvin, John. The Bondage and Liberation of the Will: a Defence of the Orthodox Doctrine of Human Choice Against Pighius. Baker Academic, 2002. Calvino, João. As Institutas – Edição clássica. Editora Cultura Cristã, 2015. Christian Classic Ethereal Library. John Calvin’s Commentaries. Acessado: https://www.ccel.org/ccel/calvin/commentaries.i.html Haykin, Michael; Robinson, Jeffrey. To the Ends of the Earth: Calvin’s Missional Vision and Legacy. Crossway, 2014. Tokashiki, Ewerton. Missões na reforma protestante do século 16. Acessado: http://monergismo.com/textos/missoes_reforma.htm Simons, Scott. João Calvino e Missões: um Estudo Histórico. Acessado: http://www.monergismo.com/textos/jcalvino/calvino_missoes_scott.htm

Por: Gomes Silva
Redação: Consciência Cristã News

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Porque essa gente é incômoda? Uma análise do artigo escrito por J. R. Guzzo publicado pela Veja

A cosmovisão afeta nossa forma de enxergar o mundo pois nos faz julgar tudo a partir de nossos pressupostos culturais, sociais e ideológicos. Nós cristãos, acreditamos que a correta visão da realidade vem a partir dos óculos da cosmovisão cristã e é a partir deste enfoque que vamos tirar uma radiografia do artigo “Essa gente incômoda” da revista Veja escrito por J. R. Guzzo. Podemos nos fazer a seguinte pergunta: “Porque essa gente é incômoda?” E analisar o artigo para responder com uma cosmovisão bíblica acerca do problema.

Primeiro quero indicar aqui que nem tudo afirmado no artigo da Veja reflete a fé de todos os evangélicos de nosso país, mas reflete a partir da visão crítica de alguém um pacote que ao nosso ver chamamos de evangelicalismo. Este pacote evangélico no nosso país nem sempre reflete os interesses da sagrada Palavra de Deus e o que de fato os cristãos bíblicos pensam a respeito dos assuntos mais diversos da vida em sociedade. Vamos analisar a ideia do artigo de modo a equilibrar a visão apresentada com aquilo que acreditamos ser a realidade bíblica do problema e acrescer uma cosmovisão bíblica as afirmações do artigo.

O artigo começa assim:

“Quem é contra a liberdade de religião no Brasil? Mais gente do que você pensa, com toda a certeza, embora quase ninguém vá dizer isso em público, é claro — provavelmente não dirá nem mesmo no anonimato de uma pesquisa de opinião. Mas é preciso ser realmente muito bobo, ou muito hipócrita, para achar que está tudo em ordem com a liberdade religiosa no Brasil quando as nossas classes mais altas, que também se consideram as mais civilizadas, sentem tanto desprezo, irritação e antipatia pela religião que mais cresce no país. ”

O grande fato é que existe sim uma “guerra fria” neste contexto em nosso país, mas que nem sempre é uma classe contra outra, pois sabemos que em muitos círculos ditos cristãos existem assuntos muito divergentes e que causam certa perseguição até mesmo dentro dos círculos evangélicos.

O artigo expressa que esta perseguição vem dos ditos mais ricos, mais instruídos, mais viajados, mais capacitados a discutir política, cultura e temas nacionais e que são vendidos pela mídia comum como sendo os esclarecidos, liberais, intelectuais, modernos, politizados, sofisticados e portadores de diversas outras virtudes. Ele afirma que toda a esquerda nacional, por definição, está aí dentro e alguns direitista e de centro que não se misturam com o “povão”. Entendo a tentativa do autor de explicar a visão comum de um grupo a respeito do outro, mas existem muitos evangélicos capacitadíssimos a discutir política, cultura, temas nacionais e que são viajados, estudados, esclarecidos e portadores de diversas virtudes, portanto, esta divisão não é real, mas uma imagem criada a partir de um estereótipo e isso deve ser levado em consideração em nossa análise.

O que percebemos é que o fato não é uma guerra de classes como colocado no artigo, mas uma briga ideológica no centro de tudo! A grande questão é que esta briga ideológica não afeta apenas os pensamentos, mas afeta a vida prática em sociedade! A vida social é regida pelas leis e estas têm sua base de origem na moral judaico-cristã em sua maioria, como este é o foco do ataque, as pessoas que hoje detêm o poder de influenciar e decidir estão tentando redesenhar estas leis a partir de uma linha da moralidade própria, que contradiz a moral comum da maioria da população que é cristã ou não, mas que está arraigada em uma cultura fortemente influenciada por uma moral judaico cristã! O artigo erra ao simplificar a questão como se fosse uma briga de classes. Na realidade, é uma tentativa de um grupo pequeno de intelectuais que está no poder ao redesenhar a moral de uma sociedade! O grande fato não é que você incomoda por ser evangélico, mas você incomoda por possuir uma moral judaico-cristã. Esta moral judaico-cristã é uma questão de civilização ocidental e não de religião evangélica pois nem todos os grupos evangélicos possuem esta moral e muitos já se contaminaram com ideologias mundanas e sem nenhuma base bíblica. Muitos evangélicos já estão corrompidos, ou nunca se converteram a uma vida cristã moralmente santa.

O ataque não é do “evangélico” conservador contra os intelectuais, mas é um ataque dos intelectuais a base da civilização judaico-cristã com a tentativa de redesenhar o moral de nossa civilização. A reação natural é que a cultura resiste de modo visivelmente organizado nos meios religiosos a partir da moral comum que se identifica com a moral bíblica.

O autor acerta no momento em que afirma que o ataque é com vistas a transformar o povo evangélico em vilões retrógrados e que se levantam contra o progressismo. Muitos dos ataques, são tentativas de vincular o nome evangélico à corrupção, intolerância, violência e etc., como se fossemos um tipo de estado islâmico brasileiro. Isso sim é fato, mas repito que tudo isso se explica não em uma guerra de classes, mas numa tentativa de demonizar a cultura judaico-cristã que está arraigada com mais força nos meios evangélicos que crescem a cada dia e que nem por causa disso santificam nossa cultura. Infelizmente o número evangélico que cresce não representa um aumento da moral de nossa nação, pois a corrupção é vista a olhos nus em muitos dos que se dizem cristãos com pequenos atos de corrupção. O que tem crescido, e este é o foco de ataque de muitos progressistas conforme afirmado no artigo, é a massa dos evangélicos nominais que são manobrados por líderes mal-intencionados e que não representam o cristianismo bíblico que muitos professam em igrejas sérias. Estas massas são manobradas por estes líderes em virtude de seus egos inflados e desejos de angariar popularidade “santa” e tirar do poder os que hoje estão no poder e que são chamados pelo artigo como a gente de bem intelectual.

O que em minha opinião acontece, é uma guerra fria de dois grupos: de um lado os socialmente influentes e progressistas que manobram a mídia para se manter no poder e inserir na cultura sua agenda de progresso, do outro lado, líderes que usam a base judaico-cristã da sociedade para se promover como defensores dos bons costumes, mas que na realidade desejam ganhar mais poder de influência e que se conseguem, implantam a ditadura religiosa que tanto sonham. É a velha guerra dos que mamam contra os que querem mamar e cada um usa seus argumentos para isso: o progressismo ou o conservadorismo.

O que venho a partir de tudo isso afirmar? Não podemos colocar uma religião nominalmente em um pacote, pois nem todos lutam igualmente e com as ferramentas biblicamente corretas na busca pela verdade. O que acontece é que o evangelicalismo tem sido manobrado por grupos que desejam mais o poder do que a verdade, e isso tem dado muita munição para os que querem destruir a cultura e a imagem de Cristo e das Escrituras. O ataque no fim não é contra a religião, mas contra os fundamentos de uma civilização, e para destruir estes fundamentos tem se utilizado dos erros de uma cultura evangélica destituída de verdade bíblica e prática piedosa. Quero chamar aqui em particular esta massa evangélica sem base bíblica e de vida de “evangélicos de massa”.

A partir dos erros desses “evangélicos de massa” manobrados por interesse de alguns, o grupo progressista tenta vender a imagem de que todos os que se levantam contra algo com um argumento moral é na realidade do grupo dos “evangélicos de massa” e assim criam um medo do “povo” de apoiar aquilo que é moralmente básico de nossa sociedade. Desta forma eles conseguem descontruir tudo. O cerne da questão é o uso dos “evangélicos de massa” como ferramentas ou espantalhos, como meio de descontruir a base moral de nossa cultura de modo que alguém será culpado no final de tudo e estes serão o próprio povo evangélico radical, conservador, homofóbico, facista e por aí vai.

Ele conclui o artigo afirmando que o povo evangélico é um problema sem solução para os progressistas, mas na realidade o problema, para eles não é o povo evangélico, mas a base forte da moralidade judaico-cristã que está arraigada em nossa sociedade e cultura brasileira e que tem resistido a cada dia as investidas de um pequeno grupo progressista que tem perdido seu poder nos lugares de influência onde estavam.

Biblicamente falando o problema do ser humano não é político, mas espiritual pois como afirmado em Romanos 1 o homem se perde em seu raciocínio pois esqueceu de Deus como linha moral que define tudo e todos. Os homens estão em estado de rebeldia natural contra Deus independente de classe social, ideológica, política. O cerne do problema humano é o coração e isso todos nós temos em nosso peito independente de que lado você esteja.

Pr. Lázaro Leyson Guimarães Oliveira
Igreja Batista da Graça – Campina Grande/PB

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Blogueiro da Gazeta do Povo diz em artigo que evangélicos brasileiros estão no foco da guerra cultural

Em seu artigo “Cabo de Guerra Cultural: Evangélicos são o foco de Resistência Contra `Progressistas´ Imorais”, publicado pela Gazeta do Povo nesta quarta-feira (04), o blogueiro e economista Rodrigo Constantino faz uma análise conjuntural da sociedade brasileira e destaca a perseguição, que vem sendo perpetrada contra os evangélicos, que vem resistindo bravamente a horda de bárbaros revolucionários que juram representar o ápice da civilização, mas que defendem um “progresso” que levaria essa mesma sociedade de volta ao estágio animalesco de puro instinto carnal. Eis o artigo na íntegra:

Qualquer pessoa minimamente atenta já percebeu que há uma forte campanha “progressista” em curso que visa a promover uma sexualização cada vez mais precoce, disseminar um comportamento hedonista irresponsável, e enfiar goela abaixo das crianças o embuste da “ideologia de gênero”.

Por trás disso está uma agenda maior, que tem como meta destruir valores tradicionais “burgueses”, como a religião, a família e a infância, esgarçando o tecido social ao limite e deixando o caminho mais livre para totalitarismos.

É preciso ser muito cego para não ter se dado conta do fenômeno ainda. E quem tem acompanhado mais de perto a coisa, saberá que o grande – talvez o único – foco de resistência a essa pauta tem sido a turma evangélica.

Sabemos do preconceito que os evangélicos sofrem no Brasil, especialmente por parte da elite “descolada”, do GNT people, da turminha que não tem preconceito contra nada, só contra conservadores e evangélicos. Mas são eles que estão comprando essa briga, quase que sozinhos, sendo alvos de ataques pérfidos, chamados de “fundamentalistas” ou “obscurantistas”.

Na coluna “Poder em Jogo” no Globo hoje consta o cabo de guerra no Ministério da Educação:

O ministro da Educação, Mendonça Filho, está no meio de uma briga entre a bancada evangélica e especialistas e entidades do setor. O Conselho Nacional de Educação prepara a versão final da Base Nacional Comum Curricular. Menções sobre “identidade de gênero” e “orientação sexual” haviam sido retiradas do texto. Diante da pressão de educadores para a inclusão dos termos novamente, os parlamentares religiosos protestam junto à equipe do ministro para impedir a revisão.

Reparem como o jornal dá a notícia: de um lado temos “a bancada evangélica”, e do outro os “especialistas e entidades do setor”. O viés já fica escancarado na largada. Só que são justamente os tais “especialistas” que abraçaram com vontade a agenda “progressista” imoral, que trocaram a ciência pela ideologia obscurantista, que passaram a acreditar que sexo e gênero são “construções sociais” e que cada um é o que quiser, escolhendo entre mais de 50 opções.

Enquanto isso, o beautiful people do Projaquistão insiste em sua campanha indecente, relativizando até mesmo a pedofilia, sob o disfarce da “arte”. O mesmo Globo declara guerra aberta, puxando da cartola franceses indecentes para justificar a indecência tupiniquim, como se não tivessem saído da França inúmeras ideologias estapafúrdias e responsáveis por grande desgraça mundo afora:

A OAB, que se transformou num antro esquerdista a ponto de a sigla ter mais sentido como Ordem dos Advogados Bolivarianos, também embarcou na canoa furada, e resolveu promover evento contra a “LGBTfobia infantil”:

Foto: Gazeta do Povo

Comissão da Diversidade Sexual? Vamos falar sobre o “preconceito” a crianças bissexuais, transgêneros ou algo do tipo? Sim, sabemos que esse pessoal tem fomentado até o “gênero fluido” já ao nascimento, e que com apenas 2 ou 3 anos a criancinha já pode “escolher” seu gênero, ou ser induzida a experimentar várias alternativas. São mentes doentes, perturbadas, que se julgam “moderninhas” e “tolerantes”.

E contra esses malucos pervertidos temos basicamente, repito, os evangélicos. Portanto, caro leitor, se você é membro da elite que aprendeu a olhar com certo desprezo para os evangélicos, como se fossem todos uns alienados trouxas que bancam aquele pastor embusteiro milionário, pense duas vezes antes de repetir os seus preconceitos por aí.

Do meu ponto de vista, esses evangélicos merecem nosso respeito e apoio, pois estão resistindo a uma horda de bárbaros revolucionários que juram representar o ápice da civilização, mas que defendem um “progresso” que nos levaria de volta ao estágio animalesco de puro instinto carnal. Quebrar todos os tabus não é progresso ou civilização, mas seu oposto: é barbarizar a humanidade.

Autor: Rodrigo Constantino
Fonte: Gazeta do Povo

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A visão totalmente deturpada que a esquerda tem da família tradicional

Sei que, ao rebater a coluna de Tati Bernardi na Folha hoje, a primeira pergunta do meu leitor será: quem? Mas não importa. Mais importante é o que foi dito, pois ela não está isolada. Ao contrário: acho que representa muito bem a média “progressista”, a turminha “descolada” que diz defender as “minorias” e a tolerância, enquanto destila profundo ódio aos conservadores.

Tati Bernardi tem uma visão realmente tosca do que vem a ser uma típica família. Não sei se Freud explica, se é pura projeção, se ela foi vítima de alguma família tão disfuncional assim, como retrata a dos outros. Mas é triste ver o que a esquerda pensa sobre a direita. Mostra seu enorme grau de alienação, a distância que ficou da gente comum, ao se fechar nessa bolha “progressista”. Eis o grupo que ela pretende defender contra a intromissão desses “medíocres hipócritas”:

Gays, trans, putas, putos, gente pró-aborto, gente pró-relacionamento aberto, mães solteiras, casais homossexuais que querem adotar e amar uma criança, o que a vida dessas pessoas tem a ver com a sua? Por que você ocupa seu tempo fiscalizando o que os outros, muitas vezes desconhecidos, fazem de seus orifícios, úteros, corações e ideais? Que obsessão é essa pelas andanças do ânus, do pênis e da vagina do vizinho? A sua vida sexual só pode andar muito sem graça ou, o mais provável: torrencialmente reprimida.

É tanta inversão que cansa só de começar a rebater. Em primeiro lugar, a mistura é bem infeliz, pois ao colocar aborto na lista, a moça esquece que trucidar um feto humano no ventre da mãe envolve uma outra pessoa, um ser humano em formação. O que a mulher faz com seu útero, portanto, quando há outra vida lá dentro é certamente do interesse da sociedade civilizada. O que isso tem a ver com um adulto que resolve fazer sexo consentido com outro adulto entre quatro paredes não fica claro. Mas a agenda “progressista” é assim mesmo: um pacote completo. E um pacote bem incoerente.

Além disso, não são os conservadores que ficam “fiscalizando” os outros, e sim os outros, em especial os movimentos políticos desses outros, que ficam tentando subverter todos os valores morais da sociedade. Quem faz novela para adolescentes enaltecendo transgênero como se fosse a coisa mais banal do mundo querer mutilar o próprio corpo pois “nasceu no corpo errado”? Quem faz mostra “cultural” com pedofilia e zoofilia para crianças? Quem quer suprimir até os termos pai e mãe de documentos oficiais para não “ofender” aqueles que têm “famílias” diferentes? Quem quer enfiar “kit gay” goela abaixo dos alunos nas escolas? E por aí vai.

Os conservadores – e qualquer pessoa razoável, diga-se – estão simplesmente reagindo a tudo isso, a essa pauta depravada, a essa militância chata, histérica, afetada, politicamente correta. Mas a “engraçadinha” continua:

Daí vem você com seu argumento furado: “pela família”. Você só quer proteger essa instituição espetacular e secular! Ó grande controlador do universo e dos desejos alheios! Que missão grandiosa que vossa senhoria (que não consegue nem pagar um puff à vista) acabou pegando pra si: nos salvar da extinção! Quem diria que tu, com esse dentinho podre, era Deus?

Você luta bravamente pelo sagrado! Ofende, ultraja, marginaliza, machuca… em nome da família! Formada, na sua cabeça limitada, por um pai autoritário, uma mãe submissa e filhos que aprenderam dentro de casa a fazer bullying (sempre pautados pelo bem e pela religião) contra qualquer colega que tenha orientações sexuais (ou políticas) diferenciadas.

Eis aí a visão patética que essa gente tem da família. O conservador “ofende”, “ultraja”, “marginaliza” e “machuca” as minorias (onde?), segundo Tati. Não são as feministas radicais que ofendem os religiosos quando enfiam crucifixos no ânus em praça pública, claro, ou quando esfregam as tetas na cara de padres. Isso é “protesto legítimo”, naturalmente. A ofensa vem de quem quer simplesmente resguardar as crianças da libertinagem imposta pela galera engajada, ou de quem luta pelo simples direito de dizer que prefere ter um filho heterossexual, o que hoje já é considerado absurdo e crime pela ótica maluca desse pessoal, para quem todos tinham que ser indiferentes quanto à questão ou até mesmo achar lindo e fofo um filhinho que aos 3 anos prefere boneca e depois, aos 10, balé. Que horror constatar que acharia melhor se ele gostasse mais de futebol!

A família tradicional, para Tati e demais “progressistas”, é formada por um pai autoritário, uma mãe submissa, um tio pedófilo (mas pensei que fosse a esquerda que tratasse a pedofilia de forma banal), filhos idiotas que fazem bullying com minorias, pois aprenderam com os pais religiosos, um primo “machistão vagabundo que só come, dorme e defeca porque a esposa trabalha feito condenada” etc. Repito: seria projeção freudiana? Que tipo de família Tati teve para ter essa impressão tão terrível da típica família tradicional? Mas ela conclui que só esses “reprimidos” condenam a agenda LGBTXYZ:

Por que você, entediado com sua vidinha medíocre, tão desesperado pra sair dando porrada e ensinando o que é certo, perdoa pedófilos, agressores, parasitas da energia alheia, mas não entende aquele menino batalhador, andando na Paulista, que na sua mente perturbada cometeu apenas um crime: não andar feito macho! O que é um macho? Você se considera um? Ficar pensando em enlaces homoafetivos antes de dormir faz de você um baita machão? Hmmmmm, dez entre dez bons psicanalistas (que acreditam mais na curra gay do que na cura gay) desconfiariam disso.

Dez entre cada dez psicanalistas que ela considera bons hoje em dia são esquerdinhas até o último fio de cabelo, que abraçaram o relativismo moral exacerbado como sua religião, uma seita pervertida que pretende perverter o mundo à sua própria imagem. Gente com famílias disfuncionais que quer destruir a família tradicional, em vez de entender que o problema talvez estivesse com a sua família doida. São esses que recebem pacientes no divã atualmente. Eleitores do PSOL. Defensores de Maduro. A turma que chama tudo que não é socialismo de fascismo, que basta ser do PSDB para ser “ultraconservador”, e que encara a direita como um bando de reprimidos hipócritas que quer sair por aí batendo em gays.

Depois Trump vence a eleição, ou quem sabe Bolsonaro no Brasil, e esse pessoal fica perplexo, horrorizado com o “povo”, aquele que diz representar e defender. Não seria o caso de ir efetivamente conhecer o povo antes de falar tanta besteira no jornal?

Autor: Rodrigo Constantino
Fonte: Gazeta do Povo

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Feministas perdem um ícone: Angelina Jolie diz se sentir “mais mulher” como dona de casa

Em tempos de feminismo forte, Angelina Jolie tomou uma decisão que, para algumas mulheres, pode parecer um retrocesso. Ela trocou o trabalho pela vida de dona de casa. Em entrevista à revista Vanity Fair que está vindo a lume aos poucos, a atriz, que é também diretora, conta que colocou a produção de filmes de lado para se tornar uma mãe melhor, fazer aulas de culinária e cumprir tarefas domésticas como limpar cocô de cachorro. E que se sente “mais mulher” por isso.

“Eu na verdade me sinto mais mulher porque sinto que estou sendo esperta sobre minhas escolhas. Estou colocando minha família em primeiro lugar, e estou no comando de minha vida e minha saúde. Acho que isto é o que torna uma mulher completa”, disse Jolie.

Seu filme mais recente como diretora, First They Killed My Father, sobre o regime do Khmer Vermelho, que resultou na morte de mais de 1 milhão de pessoas na década de 1970, estreou no Camboja em fevereiro. O filme está programado para lançamento global e no Netflix em setembro. À parte da divulgação do filme, Jolie disse não ter interesse em trabalhar em outro longa por ora. Ela possui guarda primária dos seis filhos com Brad Pitt, mas ainda falta um acordo final sobre o divórcio.

“Tento há nove meses ser realmente boa em ser somente uma dona de casa e limpar cocô do cachorro e lavar a louça e ler histórias antes de dormir. E estou melhorando nas três coisas”, disse à edição de setembro da Vanity Fair. “Quando vou dormir à noite, eu penso, ‘Eu fiz um bom trabalho como mãe ou foi um dia mediano?”.

Angelina Jolie, de 42 anos, que é também enviada especial da agência de refugiados da Organização das Nações Unidas, disse que os filhos foram “muito corajosos” desde a separação de Pitt. “Eles são seis indivíduos fortes de espírito, cheios de ideias e mundanos. Sou muito orgulhosa deles. Eles têm sido muito corajosos. Eles foram muito corajosos.”

Rodrigo Constantino
Gazeta do Povo
(Com agência Reuters)

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O comunismo deve ser proibido por lei?

Há sempre uma solução bem conhecida para qualquer problema humano: bela, plausível e errada.

H. L. Mencken

O comunismo é a pior ideia da história. A mais assassina e danosa, a que mais trouxe miséria, mortes e destruição. Suas perversões ideológicas deram origem a ditaduras genocidas que criaram a maior máquina de matar que a humanidade conheceu. Não há como relativizar ou edulcorar seu legado sem recorrer a falácias, sofismas e falsidades.

Qualquer bípede que leia “Arquipélago Gulag”, a obra monumental e definitiva de Alexander Soljenítsin, sabe do que estou falando. Soljenítsin ficou onze anos preso num campo de concentração da URSS mas sobreviveu para contar ao mundo não apenas sua experiência pessoal mas também para oferecer uma reflexão única sobre o que levou ao regime, suas implicações reais na vida da população e como as idéias de Marx e Lênin não foram “deturpadas”, muito pelo contrário, o comunismo soviético foi a consequência natural e direta daquela ideologia.

O show de horrores do comunismo soviético pode ser conhecido também assistindo o documentário The Soviet Story, fruto de dez anos de trabalho do diretor letão Edvins Snore e facilmente encontrável na internet, um clássico que deveria ser mostrado nas escolas. Para uma leitura mais leve e não menos contundente, você pode optar pelo recém lançado “Viagens aos Confins do Comunismo”, de Theodore Dalrymple. Se você quiser um levantamento mais completo, nada supera “O Livro Negro do Comunismo”, compêndio que mostra como se chegou ao assombroso número de 100 milhões de mortes desta ideologia nefasta. A bibliografia é tão vasta quanto o mal que o comunismo causou até hoje e continua causando.

Sendo assim, qual seria a explicação para o comunismo não ter uma fama tão ruim ou pior do que o fascismo? Por que chamar de “fascista” é uma ofensa gravíssima e de “comunista” muitas vezes é visto como um elogio? É nesta questão que está a chave para o entendimento do motivo da criminalização pura e simples do comunismo em países como o Brasil, já tentada outras vezes, não funciona ou vai funcionar para erradicar o mal.

“Nunca odeie seu inimigo. Isso atrapalha o julgamento.” 

Michael Corleone (O Poderoso Chefão III)

Como já repetiu exaustivamente o filósofo Olavo de Carvalho, indiscutivelmente uma das maiores autoridades vivas em comunismo no planeta, a ideologia marxista é uma “cultura”, um “oceano de conhecimento” que possui inúmeras formas, variações e manifestações em praticamente todas as áreas do saber além da política, filosofia, história e economia. É possível encontrar a impressão digital do marxismo em disciplinas tão diferentes quanto psicologia, arquitetura, pedagogia, teologia, direito, medicina, administração e aplicações nas artes, no jornalismo, no esporte e até na moda. Se o comunismo é um câncer cultural, é claro que já deu metástase.

O marxismo é tão influente que mesmo entre liberais, supostamente o grupo mais anticomunista que deveria existir, é possível identificar grupos que aceitam tacitamente suas premissas, muitas vezes sem se dar conta. Ao assumir, por exemplo, a idéia estúpida de que “capitalismo é egoísmo”, parte do movimento liberal acaba por servir de idiota útil do próprio comunismo. O capitalismo não é apenas incomparavelmente lucrativo, ele é também o sistema mais inclusivo e o que gera mais oportunidades para o maior número de pessoas envolvidas.

O sistema de livre mercado não é apenas um modo de trocas voluntárias baseado na propriedade privada, é também a forma mais avançada já descoberta para criação de riquezas e para promoção da cooperação humana e do bem estar geral da humanidade, e ele funciona na plenitude em sociedades com valores morais bastante arraigados onde os agentes econômicos partilham de um ambiente de confiança, ética e colaboração mútua. É imperfeito e falho como qualquer criação humana, mas sem qualquer paralelo quando comparado às alternativas já tentadas.

O livre mercado e o conservadorismo liberal não são apenas política e economicamente superiores a todos os outros sistemas, são também moralmente defensáveis sob qualquer ponto de vista numa discussão intelectualmente honesta. Mas não é isso que você aprende na escola, na universidade, dos líderes comunitários e religiosos em geral, não é o que você vê no jornalismo atual, nas novelas, filmes, poesia ou nas mais diversas manifestações culturais de hoje. A “classe falante” ocidental dos tempos atuais é tão influenciada e seduzida pelo marxismo original e suas versões quanto possível. É um mal que não se combate com lei.

O fascismo e o nazismo estão proibidos porque as leis que criminalizam a defesa destas ideologias refletem um amplo, sistemático, competente e incansável trabalho de desmoralização cultural do que representaram na história. Em países como o Brasil, onde a guerra cultural contra o socialismo e comunismo é incipiente, vacilante, tímida e restrita a pequenos grupelhos ou vozes isoladas, a criminalização sem a necessária e prévia destruição cultural teria o mesmo efeito da proibição do biquíni por Jânio Quadros.

Após o fim da Segunda Guerra, a Alemanha passou por um processo conhecido como “desnazificação” e que deixou algumas lições que precisam ser devidamente estudadas pelos combatentes do comunismo. Com os julgamentos de Nuremberg, vários nazistas foram condenados e mortos, mas a luta contra o nazismo como ideologia e cultura estava apenas começando. Os símbolos nazistas foram retirados dos espaços públicos, a literatura apologética foi banida, os membros do partido retirados de posições-chave da administração pública, das universidades e instituições culturais, tudo acompanhado de um amplo, transparente e doloroso processo de expiação dos pecados e crimes de guerra do país, um trabalho que, convenhamos, não terminará nunca. Se o nazismo fosse apenas proibido por lei, ele estaria mais vivo do que nunca.

O Brasil já proibiu o comunismo e os partidos comunistas. O PCB, proibido por Vargas nos anos 30, voltou legalizado em 1945 e participou das eleições daquele ano conquistando 15 cadeiras na Câmara dos Deputados e uma de senador para Luís Carlos Prestes, o segundo mais votado do país, influenciando diretamente nos rumos da Assembléia Constituinte de 1946. O PCB teve seu registro cassado em 1947, mas seus representantes continuaram participando ativamente da política nacional e os comunistas voltaram a ter seus partidos como sempre voltarão se suas idéias não forem derrotadas.

A vitória sobre o comunismo só acontecerá quando conservadores e liberais entenderem que é preciso um investimento sério na produção científica de trabalhos que exponham claramente os males desta ideologia e suas variações e vertentes, como também alertou Olavo de Carvalho. Estes estudos servirão de arcabouço para a luta por corações e mentes no jornalismo, nas artes, templos, sindicatos e nas mesas de bar.

O comunismo explora vulnerabilidades da alma humana e da nossa natureza imperfeita que nenhuma lei poderá evitar ou proteger.

O comunismo explora vulnerabilidades da alma humana e da nossa natureza imperfeita que nenhuma lei poderá evitar ou proteger. O espaço vazio da mente ociosa, ignorante, invejosa, caótica, desonesta ou preguiçosa sempre poderá ser preenchido com idéias abjetas e destrutivas, com as mais diversas denominações. Sem uma população com uma imaginação moral desenvolvida e elevada, ideologias autoritárias sempre terão um terreno fértil para florescer.

06/07/2017- Brasília- DF, Brasil- Presidenta, Gleisi Hoffmann, durante primeira reunião do novo Diretório Nacional do PT. reunião. Presidente Lula.
Foto: Ricardo Stuckert

O Brasil é o país em que o PT, depois de montar a maior máquina de pilhagem de dinheiro público do mundo e ter seu líder máximo condenado na justiça por corrupção, um partido que saiu do poder depois de quase 15 anos deixando uma terra arrasada e a maior recessão da história do país, vê Lula liderando as pesquisas de intenção de voto para presidente. Apenas este fato já deveria servir para você entender que não se combate o mal da cultura esquerdista apenas com canetadas ou no grito.

A desmoralização do socialismo e do comunismo no Brasil depende de um conjunto extremamente complexo, abrangente e dispendioso de produção científica e cultural que mostre à população as bases morais repugnantes e homicidas destas ideologias, passando por uma divulgação incessante, sistemática, persuasiva, sedutora e criativa dos valores que construíram o Ocidente, o conservadorismo liberal e as sociedades mais livres, prósperas e bem sucedidas da história humana.

Alexandre Borges
É analista político, escritor, palestrante, profissional de marketing e diretor do Instituto Liberal.

Publicação: Gazeta do Povo 

 

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O divórcio bíblico

Crente pode se divorciar? Como a Bíblia trata a questão do casamento, divórcio e novo casamento? Será que um cristão autêntico pode, depois de um divórcio, casar-se novamente? A Bíblia permite um novo casamento para quem se separou?

Esse artigo surge da necessidade de explicar minha posição e responder, de modo definitivo, o que creio ser a prescrição bíblica sobre o tema. Obviamente não tratarei de todos argumentos e detalhes propostos pelas partes. E nem vou abordar exatamente aquilo que já foi expôs por outros. Apenas esboçarei a minha posição no assunto, i.e. como eu resolvo essa questão, como respondo essas perguntas; apresentarei a “minha” síntese defendida. No fim citarei uma pequena lista de artigos que ao meu ver tratam do assunto de forma certo e útil, corroborando e ampliando o que defenderei aqui.

Bem acertadamente John Murray disse “sobre esta questão, a igreja está, na prática, fortemente dividida”. Por um lado, vemos uma linha histórico-confessional afirmar a possibilidade do novo casamento para aqueles que se divorciaram – não sem algumas restrições. Entretanto há pastores famosos (não só de agora) que afirmam, quase que isoladamente, mas sem medo algum, que todos os novos casamentos – mesmo depois de um processo formal de divórcio – são, na verdade, relações (biblicamente) ilegais e adúlteras, ideia que sempre teve um bom número de adeptos.

É um tema importante, embora melindroso. Quase sempre quando falamos dessa matéria, aparece a acusação – brincadeira ou não – de que estamos procurando uma brecha para nosso caso; ou ainda “só defende isso quem é divorciado ou tem algum caso assim na família”; de outra feita, claro, há quem levante a voz a favor do caso, tentando constranger a outra parte do risco de amanhã ser ela a buscar o novo casamento!

Mas um cristão autêntico não pode escolher qual doutrina cristã abraçar. Com temor e tremor, ele precisa abandonar toda a pretensão de ser capaz de dirigir sua vida, e então, se submeter a todas as ordens e instruções divinamente reveladas na Palavra. Afinal, Ele é sábio, santo e bom! E para nós pastores, o peso é ainda maior, pois não somos questionados sobre isso apenas por curiosidade ou interesse acadêmico. Muitas pessoas passam por problemas reais nessa área, e precisam ser consoladas e renovadas na esperança da clara, inequívoca, inerrante e suficiente Palavra de Deus.

VAMOS AO CASO

Ao tratar desse assunto, somos rapidamente lembrados de textos como: “Eu odeio o divórcio”, diz o Senhor, o Deus de Israel… (Ml 2;16)” ou “…o que Deus ajuntou não separe o homem” (Mc 10;9) ou ainda “…a mulher casada está ligada pela lei ao marido, enquanto ele vive… (Rm 7;2)”, além é claro das falas diretas de Jesus sobre o assunto. Talvez por isso fica fácil perceber na cristandade pelo menos 3 teses concorrentes. Investigar qual delas é a que condiz com o todo ver revelado, subjaz no cerne desse artigo:

1- Qualquer divórcio é totalmente proibido na Bíblia;
2- O divórcio é possível em um único caso, mas o novo casamento é vetado;
3- Para único caso de divórcio possível é também possível um novo casamento.

Passando ao largo da fala de gente famosa, é fácil desconstruir a tese 1, afinal Moisés legislou sobre o assunto (Dt 24;1). E mesmo que apenas instituindo regras simples sobre o repúdio (uma forma de dizer ‘divórcio’), é tácito em todo o Velho Testamento: a prática ocorria! Isso é tão verdade que quando Cristo foi questionado sobre o caso, ele não negou que Moisés deu orientações para situação. E mais, o Mestre usa dessa “permissão”, aplicando-a especificamente a relação sexual ilícita (Mt 5;31 e 32 e correlatos).

Já o apóstolo Paulo quando manda em 1Co 7;10 “…que a mulher não se separe do marido” também diz no verso 11, “se, porém, ela vier a separar-se…” – o que em si confirma claramente a possibilidade do divórcio (e aqui sem julgar o mérito da causa) – e mais, no v.15, diz: “se o descrente quiser apartar-se, que se aparte” acrescentando no v.16, “como sabes, ó mulher, se salvarás teu marido? Ou, como sabes, ó marido, se salvarás tua mulher?”. Assim definitivamente caindo a tese 1 “não há base bíblica para o divórcio”, nem mesmo o apelo a fé em uma futura conversão serve de apoio para o constrangimento.

E se ainda ficou dúvidas, em especial quanto a Ml 2;16 (Deus odeia o divórcio) ali Deus condena haver vontade (ou causas) para o divórcio; se fala contra o abandono sem motivo ou por frívolas paixões. Em Mc 10;9 (o que Deus juntou…) pela análise do contexto, sabemos que Jesus não impossibilita o divórcio mas reafirma a óbvia prescrição divina da fidelidade. Assim, temos que nesses textos, o Senhor põe limites a ocorrência da separação (divórcio, repúdio), legislando seus detalhes, diferenciando os casos uns dos outros.

UMA ALIANÇA FRÁGIL:

O casamento é uma aliança conjugal, pública e formal, de auxílio mútuo, cuidados, amor e fidelidade sexual entre um homem e sua mulher (CFW, cap. XXIV. II). Foi estabelecida por Deus antes mesmo da Queda (Gn 2;18). Deve ser mantido e protegido em qualquer circunstância. Esse pacto molda o início ideal da família, o modo pelo qual Deus ordinariamente decidiu exercer seu controle na Criação, revelar Seu Caráter a todas as criaturas (Gn 1;26 e 28) e trazer à existência os eleitos (o Seu Povo). Serve de figura para o relacionamento entre Deus e Israel; dá o pano de fundo para algumas histórias redentivas que apontam para Cristo Jesus. O apóstolo Paulo diz que essa aliança revela um grande mistério, Cristo e a Igreja (Ef 5;32).

Pensando assim, a infidelidade conjugal ganha um aspecto ainda mais terrível. Afinal é um atentado direto, primeiramente a Deus, que estabeleceu as regras (inalteráveis) do próprio casamento – falando simplesmente: sexo só para um homem e sua mulher; abolindo ontologicamente qualquer configuração diferente. Mas tal coisa é também um abuso, ou blasfêmia contra o próprio Cristo, expondo a ignomínia a figura de sua santa relação com a Igreja. Não por outra razão, em mais de uma vez, o SENHOR demonstra especial ira contra esse tipo de traição – que é comparada a idolatria! Essa ocorrência, de forma mais terrível, é capaz de abalar e até ruir um casamento. Sendo alvo de uma legislação intrincada na lei mosaica, tem já no sétimo mandamento, “não adulterarás” (Ex 20;14)” sua condenação, e a desobediência desse preceito era para ser punida com a morte!

Ora, digno de toda honra (cuidado, manutenção, proteção) é o casamento sem pecado sexual (Hb 13;4). Mas quando uma das partes quebra essa aliança, trazendo para essa relação um terceiro (1Co 6:16)? Como fica a manutenção e proteção dessa Aliança uma vez quebrada? E se uma das partes simplesmente vai embora, some, abandona? Como manter aquilo que perdeu sua função de ser? E nesse ponto é importante lembrar que o apóstolo Paulo em 1Co 7;15,16 diz que em havendo o desejo do incrédulo se separar (ou literalmente se houver abandono, separação, divórcio, rompimento prático, efetivo dessa aliança) o cristão não fica preso nessa relação inexistente e, afinal ele não sabe se o cônjuge fará parte do povo de Deus para que possa alimentar esperanças[ii].

Em outras palavras, como se pode exigir a manutenção de uma aliança com quem não quer ou não está em aliança, em especial da parte que ainda fielmente, muitas vezes enganada, suporta essa relação? Não há o que manter, o pacto foi quebrado! E não há porque se firmar numa esperança futura, antes o que é verificável dita as ações. Ou seja, não há obrigatoriedade alguma da outra parte manter-se numa aliança que uma vez foi rompida.

Assim descartamos a ideia de que não há provisão bíblica para o divórcio (tese 1) e também demonstramos o porquê há essa saída. É graça divina haver libertação de algo tão vil e maligno como a confusão sexual, em especial sob a tutela do termo cunhado por Deus para descrever a sublimidade da relação mais íntima de um casal.

PODE OU NÃO PODE:

Jesus fala de modo descomplicado – como lhe é próprio – sobre Casamento, divórcio e novo casamento em diversos momentos. Mas somente em Mateus 19:9 todos esses temas aparecem juntos de uma vez. É como diz John Murray “a passagem mais fundamental (…) particularmente porque é a única passagem do Novo Testamento na qual temos a combinação da cláusula de exceção e da cláusula do novo casamento”. Então compreender essa passagem trará a resposta definitiva nesse artigo, demonstrando biblicamente se para o divórcio possível é ou não também possível um novo casamento, ou seja, definindo se a tese 2 ou a 3 é a mais adequada com a Palavra.

Mateus 19:9:

“Eu, porém, vos digo: quem repudiar sua mulher, não sendo por causa de relações sexuais ilícitas, e casar com outra comete adultério e o que casar com a repudiada comete adultério.”

O texto diz, mais literalmente:

“Digo-vos Eu, porém, todo e qualquer homem que mandar embora a sua esposa se não por causa de fornicação, e casar com outra, comete adultério; e aquele havendo casado com aquela que foi mandada embora, comete adultério.”

Ou parafraseando:

A não ser que seja por causa do sexo ilícito, quem se divorcia e se casa novamente comete adultério e quem se casa com esse divorciado também comente adultério.

É simples, temos três afirmações do Mestre, considerando já a indiferença dos gêneros:

  1. Quem se divorciar se torna adúltero ao se casar com outra pessoa;
  2. Quem se casar com esse divorciado, comete adultério;
  3. A exceção é se o divórcio for por causa de alguma relação sexual ilícita;

O resultante delas é óbvio e definitivo – afinal quem fala sobre isso é Jesus, suas palavras são leis. Assim, pedir (ou dar) o divórcio (separar ou repudiar) não é a mesma coisa de cometer adultério; entretanto um divórcio, pode expor as partes ao adultério, em que pese um casamento com outra pessoa (ponto A e B), a não ser que o repudio (separação, divórcio) tenha sido causado por relações sexuais ilícitas (ponto C).

Isso fica patente pela maneira de Cristo impor que um casamento não deve se interromper definitivamente por qualquer motivo (Ponto C). Interessantemente de modo semelhante, Paulo fala em 1Co 7;5 de concessão – não uma lei – o casal não pode se privar sexualmente um do outro, ou seja, romper (ou interromper) essa pactualidade de forma leviana, mas se eventualmente for necessário que seja em mútuo consentimento, por um tempo (ou seja não definitivamente) e no mais das vezes especificamente para alguma disciplina espiritual.

Assim, segundo Jesus (e Paulo em I Co 7), o divórcio só ocorre em definitivo, ao ponto de permitir que até um novo contrato de casamento seja firmado sem problemas, quando, e somente quando, é motivado por atos sexuais ilícitos que quebram a aliança ou por um abandono (divórcio, separação) que o torna nulo! Daí, como uma aliança, que já foi desfeita justamente, pode exercer algum impedimento sobre as partes? Ora, que liberdade esse que Paulo afirmar para o cristão abandonado mais ainda o prende a um casamento inexistente? O casamento acabou na prática, foi quebrada a aliança de amor e fidelidade; a parte fiel está mantendo sozinho um acordo que era para os dois; como obrigar que essa aliança seja mantida e tenha seus efeitos sobre aquele que nada fez para quebrá-la? E mais, como uma aliança desfeita formalmente e por força da justiça ainda pode exigir obrigações, em especial da parte inocente do fim (ou quebra) dessa aliança? Não há como! O casamento que acabou num divórcio lícito, é definitivamente encerrado, as partes estão livres das obrigações. A aliança de outrora cessou!

ALGUMAS OBJEÇÕES COMUNS:

Primeira objeção:

Há quem afirme que a cláusula de exceção dita por Jesus (ponto C) nessa passagem de Mateus é apenas um complemento para fundamentar o direito ao repudio, e não do novo casamento. Normalmente citam as passagens paralelas e dizem, “em Lc 16:18 ou Mc 10:11 não consta da cláusula de exceção (ponto C), logo por esses textos Jesus nega a possibilidade de um novo casamento”.

Contra argumentação:

Ocorre que como já vimos (tese 1), divorciar não é a mesma coisa de adultério – se o divórcio pode levar ao adultério no caso de um novo casamento (ponto B), evidentemente divórcio e adultério são coisas diferentes – e como tanto em Lc 16:18 quanto Mc 10:11, claramente Jesus não está impedindo o divórcio por que então estranhamente em Mateus apareça a exceção pela ocorrência do sexo ilícito, como lançada apenas para o divórcio? Ora, o texto aborda a controvérsia do novo casamento. Essa passagem narra a expressão (ponto C) de Cristo, afirmando que o novo casamento feito depois de um divórcio, por causa de sexo ilícito, não é igual a adultério. Os detalhes extras presentes nesse trecho não podem sofrer abusos só para que sejam igualados a outras partes da Bíblia. Assim, aquilo que para esses é a força do argumento contra o novo casamento, se mostra a verdadeira fraqueza dessa convicção. Sobrando óbvio que as diferenças no Texto Sagrado, trazem outro (acréscimo) ensino aos demais. Nada que foi escrito é dispensável ou sem autoridade.

Segunda objeção:

Alguns argumentam que πορνεια (porneia) traduzido mormente por “relações sexuais ilícitas” no lugar da expressão μοιχαω (de μοιχος – moichos; literalmente adultério, usado para traduzir o 7º mandamento na LXX[iii]) limita a instrução de Cristo, na passagem em voga, ao ocorrido antes do enlace efetivo; que descreve o pecado (ou pecados) cometido no noivado (ou compromisso de casamento, segundo o costume dos judeus). Desse modo, a única exceção do divórcio lícito (ponto C) e consequentemente casamento novo (posterior) diz daquilo que foi cometido antes do vínculo formal e definitivo do matrimônio, e até antes de haver algum acordo nupcial.

Contra argumentação:

O termo πορνεια (porneia) era de uso comum (os correlatos aparecem mais de 50 vezes na LXX) para descrever a prática (aparentemente corriqueira) da prostituição, leviandade, promiscuidade e depravação sexual já da época, logo, μοιχος (moichos: adultério) está inserido no conceito. Literalmente o que Cristo fez foi ir além do óbvio, ele informou que há mais práticas que atentam contra a fidelidade conjugal. Ele fez exatamente isso quando disse que olhar uma mulher com intenções impuras é o mesmo que adulterar (Mt 5;32 – o termo traduzido por adulterou é μοιχος – moichos) ou ainda nos versos anteriores quando discorre sobre assassinato e ódio. Sabendo que havia outras formas de desfazer um compromisso de casamento (noivado), sem que fosse num repúdio (ou divórcio), não faz sentido algum dos fariseus questionarem Jesus acerca do fim de um compromisso de casamento, e nem dele legislar que só era justo o fim de um noivado por evidente pecado sexual. E mais, havia sentença de morte e não um processo de divórcio sobre a moça prometida em casamento que teve relações com outro antes mesmo do casamento (Lv 22;20,21 e 23). Fora que é fácil demonstrar o uso do termo repúdio no Velho Testamento para caso de quem já literalmente consumo o casamento.

Terceira objeção:

A morte presumida do adúltero, ou “quando Jesus permitiu o novo casamento ele tinha em mente a morte certa do adúltero, por isso a cláusula de exceção (ponto C)”.

Contra argumentação:

Bem comum, mas também bastante flácida, não é razoável afirmar que essa exceção de Jesus para o novo casamento está apoiada na previsibilidade da pena de morte como fim natural do processo de divórcio (repúdio). Essa sentença nem era certa. E mais, morte de adúlteros não era tão comum assim nem na época de Jesus, e nem antes, haja vista as inúmeras histórias bíblicas de adultérios que não culminaram com a morte de ninguém em todo a VT. Mas que isso, se assim não fosse, para que haveria notação proibitiva do casamento com repudiados no fim da passagem, desde quando na Bíblia há casamento com mortos?

Quarta objeção:

“Você tem que perdoar setenta vezes sete!” Ou, o cristão tem que fazer tudo para manter o casamento, inclusive perdoar e suportar o adultério.

Contra argumentação:

Pode haver restauração, mas isso é uma possibilidade. O perdão e reconciliação entre os cônjuges cristãos[iv] que tiveram a aliança rompida por um adultério, é muito mais que aconselhável, certamente é o preferível e precisa ser buscado, mas não pode haver desculpas, desconsideração, desqualificação do pecado, especialmente em nome de uma piedade – falsa, claro! – ou espiritualidade extremista, porém incompatível (desobediente, diabólica) com as Santas Escrituras. O mesmo Jesus que instou a perdoar setenta vezes sete, também permitiu o fim do casamento por causa de sexo ilícito; não seja impertinente querendo ser mais santo que Jesus. Ora, quanto aos ímpios, impuros, adúlteros, que comunhão pode haver entre a luz e as trevas? Não se ponha (ou se mantenha) em julgo desigual. A condescendência ao adultério é tão nojenta quanto o adultério em si (Is 5;20, Pv 26;10, Lv 10;6, Et 4;14), e por isso mesmo a outra parte, sob hipótese nenhuma, pode manter-se nessa condição, sob o risco de também ofender ao SENHOR. Negar tal verdade é tão obtuso (Jo 14;26) e perigoso quanto esconder qualquer outro aspecto da verdadeira religião (Mt 5;17 a 20). Pensar assim é tanto lançar os irmãos (o cônjuge fiel) ao incerto, obrigando-o, muitas vezes, a se unir (1Co 6;15 a 19) em uma só carne com prostitutas – além das demais consequências físicas (Rm 1;27) – quanto chamar o certo de errado e o errado de certo! E mais, quando depender de nós, empreendamos todos os esforços para a paz (certamente aplicável na manutenção do casamento, propósito divino), mas o que fazer quando a coisa vem pelo outro?

Quinta Objeção:

O verso 10 de Mt 19 (Se essa é a condição do homem relativamente à sua mulher, não convém casar) não aponta que Jesus tenha vetado de forma tão definitiva o novo casamento, que deixa os discípulos assustados?

Contra argumento:

O v. 10 demonstra o descontentamento dos discípulos com as intrusões de Jesus, mas antes dela sugerir uma releitura da clara afirmação no verso 9, em especial quanto a extensão da cláusula de exceção, tal passagem aponta que o coração humano, mesmo do que segue Jesus, está mais propenso a se desviar da direção divina e então assumir saídas aparentemente melhor no fundo inconvenientes e insanas, que trarão consequências pesadas (lembre-se de Abraão e Ismael). Sempre o melhor é seguir a vontade prescrita de Deus e não se desviar nem para a direita e nem para a esquerda, mas ter coragem para fazer exatamente tudo o que Deus mandou.

Sexta objeção:

“A mulher está ligada ao marido enquanto esse for vivo” citando o apóstolo Paulo em Rm 7.

Contra argumentação:

Simples, de fato a mulher está ligada ao marido enquanto esse for vivo, e não ao ex-marido. Se a aliança acabou, obviamente não pode exercer domínio sobre as partes. Claro que no contexto da fala paulina não havia a necessidade dele esclarecer isso, pois ele não trazia norma para o casamento, mas estava tomando emprestada uma situação local para exemplificar uma doutrina.

Sétima objeção:

“O casamento é indissolúvel”, ou “Jesus se mantém fiel na aliança conosco e por isso devemos também permanecer na aliança do casamento”.

Contra argumentação:

Note como isso é sério, fora não entender as óbvias diferenças entre o tipo e o antítipo, entre o casamento e aquilo que ele representa Cristo e a Igreja (Ef 5;31,32), estamos dizendo que o Senhor não pode, não tem a liberdade (Rm 9;14 a 16), para se apartar de nós. Nos esquecendo que sua permanência (ou insistência) é tão somente pela GRAÇA INCONDICIONAL. Ele é fiel a si, e não a nós ou mesmo a alguma moralidade residente per si. A Aliança entre nós (eleitos) e nosso Deus, é indissolúvel por causa dEle, que se obriga a manter a relação e não por causa de uma obrigação moral que detenha Deus, ou por algum detalhe no Pacto que o aprisiona! Deus tem todo o direito de nos despedir e de constituir outros para si como Povo. E tanto poderíamos apontar a ruptura definitiva da aliança com os israelitas, já no exílio babilônico (lembre-se, as 10 tribos que se separaram ao norte, foram simplesmente apagadas do mapa), quanto o fim da relação com os próprios judeus (como povo exclusivo), quando Espírito Santo foi derramado também sobre os gentios, e antes disso tudo, com a caminhada no deserto por 40 anos, e ainda temos o triste, mas não menos justo, divórcio coletivo – a mando divino – nos tempos de Esdras (Cáp. 8 e 9) que obviamente precedeu novos casamentos… Se não fosse a obediência ativa de Cristo, imputada a nós, seu povo, nós teríamos o mesmo fim (Hb 6;4 a 8), seríamos abandonados a nós mesmos. Mas Cristo, em si mesmo, é que nos “mantém fiel nesse casamento”, afinal Deus provando seu amor, em nos conceder no Amado toda sorte de benção, e nisso também o espírito de filhos (Rm 8;15), com o qual clamamos “Aba, Pai” e laboramos pela santificação, sem a qual ninguém verá a Deus. E assim, e só assim, que a Noiva de Cristo é sem mancha e sem mácula (Ef 5;27, 2Co 11;2, Ef 1;4, Jd 1;24, Cl 1;22). Não se compare a Deus, você não é capaz de garantir nem a sua fidelidade, que dirá do outro. Além disso não pode imputar justiça (fidelidade) a ninguém!

CONCLUSÃO:

É preciso reconhecer que muita gente boa já trabalhou esse assunto. Analisando textos e mais textos, e subjugando tudo a uma exegese profunda, intrincada, complexa e por vezes indecifrável. Mas longe de tudo isso – não por mero simplismo, mas por uma convicção que me prende, digo: o Texto é Revelador – não se pode afirmar nada contra a simplicidade da leitura natural de um texto normativo da Bíblia. O Texto Sagrado não é, e não pode ser gnóstico, sob o risco de imaginarmos que a ação do Espírito fica na dependência do academicismo e não pela fé de se achegar a Palavra.

Ele nunca ficou sem testemunha! De forma que as questões mais complexas, questiúnculas e preciosismos quanto aos detalhes das línguas originais, em especial que artificialmente surgem nesse assunto, devem ficar para os especialistas. Descansemos no conhecimento médio, que sempre esteve estabelecido na Igreja, seja nas regras históricas e difusas das políticas de equivalência nas traduções, seja nas múltiplas línguas em que já fora vertida a Palavra de Deus, por vezes até milenares.

Então negar que haja um (único tipo de) divórcio bíblico, quer seja pela pronta afirmação mal compreendida, “o casamento é indissolúvel”, quer seja pelo simulacro piedoso “o cristão deve sempre perdoar” – dois modos comuns de impor aos casados aquilo que Deus não impôs – é desrespeitar o Texto, e insistir em pregar algo que não tem apoio bíblico, um erro terrível. Impor que uma aliança quebrada e formalmente encerrada ainda exerça obrigações sobre quem já não está preso a ela, é até bobo. Além disso – que não é pouca coisa – ao assumirmos que não há possibilidade de divórcio bíblico (obviamente incluso o direito da parte fiel propor novas núpcias depois do casamento ser devidamente extinto, ver CFW XXVI. V.) tanto desvalorizamos o leito conjugal sem mácula, igualando o casamento fiel com o infiel, quanto diminuímos a doutrina das Alianças.

Para os com problemas no casamento: Divórcio não é uma opção! Ele só é remédio para quando a Aliança foi rompida. Mesmo assim a reconciliação, a restauração é algo que se deve considerar em primeiro lugar. Usando como alegoria a passagem de João 2 (o casamento em Caná da Galileia) Jesus é capaz de transformar água em vinho! A obediência a Palavra de Deus pode mudar consideravelmente os rumos do seu casamento. Outra coisa, não espere a coisa ficar terrível para então pedir ajuda. Certamente seu pastor está a disposição para tratar do caso.

Para os divorciados: A obediência é a única opção. Se há como restaurar o casamento é isso que você deve fazer. Mas lembre-se: Essa aliança tem regras claras e imutáveis, que não estão disponíveis para alterações. O casamento deve ser feito no Senhor, e isso diz da restauração dele também. Um crente não deve retornar ao enlace (que uma vez foi desfeito) com um descrente; casamento misto (crente e descrente) é pecado, recasamento também! Não é correto se pôr em julgo desigual sob o pretexto de restaurar a família. Mas é melhor casar que viver abrasado, orienta também o apóstolo Paulo, assim como o casamento foi dado para o auxílio e para ajudar na continência sexual, convém que aqueles que ainda possuem desejos, se casem no Senhor! Mormente isso demandará um processo longo e cuidadoso, a Igreja pode te ajudar muito nisso.

Para os que se casaram novamente: Não encare seu novo casamento como um adultério, pode não ser mesmo o caso. Romper essa nova aliança não é a saída. Em especial quanto a coisa já aconteceu há tempos. Claro que tudo deve ser visto com cuidado e novamente seu pastor e sua igreja poderão ajudar muito. Por fim, lembrando que já houve outra história de fracasso matrimonial, se esforce, no exemplo de Cristo, para que esse novo casamento seja mesmo novo, e não só uma reedição com outros personagens da história antiga.

Para os adúlteros: Deus abomina o que você tem feito! Não pense que sempre haverá tempo e escapatória. Lembre-se, os adúlteros não herdarão o Reino dos Céus (1Co 6;9 e 10). Se arrependa agora, confesse seus pecados, em especial para seu cônjuge. Peça perdão também para Deus, e também sua ajuda para a mudança de comportamento. Procure o seu pastor e se submeta a disciplina eclesiástica aplicável. Não tente racionalizar sua atitude, e nem culpe o outro por qualquer razão que você possa pensa existir.

Para cada um de nós: Visto que nós por nós mesmos nada podemos fazer, revistamo-nos de maior humildade, e clamemos ao Pai que santifique a nós e nosso cônjuge para que não venhamos a experimentar tamanha oposição em nossa própria carne, e não imponhamos aos outros, cargas que não somos capazes de carregar e nem mesmo são justas diante de Deus. Antes, ensinemos a verdade sem receios e libertemos os aprisionados através desse conhecimento (Jo 8;32).

Apêndice  – A fala de alguns pregadores famosos que pensam assim também:

D.M.L-Jones, no famoso Estudos no Sermão do Monte aponta exatamente isso:

“O divórcio, quando legítimo, põe fim a toda e qualquer vinculação anterior, segundo ensinou o próprio Senhor Jesus. O relacionamento daquele homem para com sua esposa tornou-se o mesmo como se ela tivesse morrido; e este homem inocente tem o direito de casar-se de novo. Mais do que isso, se ele é um homem crente, então tem o direito de ter um casamento cristão. Porém, nesse caso, somente ele teria esse direito, e não ela; ou vice-versa, caso o culpado tivesse sido o homem.”

John Murray conclui seu artigo de análise das passagens em voga, dizendo:

“…este afastamento (o repúdio por causas de fornicação) tem o efeito de dissolver o vínculo do casamento; como resultado de que ele é livre para voltar a se casar sem, assim, incorrer na culpa do adultério. Em termos simples, isso significa que o divórcio em tal caso dissolve o casamento e que as partes não são mais marido e mulher.”

John Stott, depois de boas considerações pastorais afirma no livro Contracultura Cristã:

“A única situação em que o divórcio e o novo casamento são possíveis sem transgredir o sétimo mandamento é quando o casamento já foi quebrado por algum sério pecado sexual. Neste caso, e só neste caso, Jesus parece ter ensinado que o divórcio seria permissível, ou pelo menos poderia ser obtido sem que a parte inocente adquirisse mais tarde o estigma do adultério.”

Matthews Henry, em sua grande obra:

“Jesus permite o divórcio em caso de adultério; sendo que a razão da lei contra o divórcio consiste na máxima: “Serão dois numa só carne”. Se uma parte se prostituir e se tornar uma só carne em adultério, a razão da lei cessa, e também a lei. (com alterações)”.

Willian Hendricksen, em seu comentário ao evangelho de Mateus:

“…infidelidade conjugal é um ataque à própria essência do laço matrimonial. No presente exemplo, é a parte infiel quem está “separando” o que Deus juntou. Até onde vai o registrado, essa é a única base que Jesus mencionou para dar à pessoa inocente o direito de divorciar-se de sua esposa e casar-se novamente. (com alterações)”

Rev. Esli Soares
Foto ilustrativa: huffingtonpost.com